Hoje, dia 13 de maio, data em que a Igreja celebra a devoção à Virgem Maria que nos deu a graça de aparecer em terras lusitanas, mais precisamente, em Fátima (Portugal), façamos reflexão em um aspecto que é bastante peculiar a essa manifestação mariana.
Ocorre que a mensagem central de Nossa Senhora em Fátima diz respeito ao arrependimento e à conversão, no que o papel do sofrimento adquire um caráter essencial.
Em relação aos sofrimentos que passamos nessa vida como decorrência natural de nossas escolhas erradas e quando escolhemos o mal, não nos ateremos em refletir no momento, por nos parecerem auto-explicativos.
No entanto, o que mais nos parece causar dúvida e certa desesperança no ser humano — e não pode haver nada pior do que deixar de confiar na graça de Deus — é quando o sofrimento chega e nos sentimos injustiçados, com aquelas dúvidas: o que eu fiz para merecer isso? Eu fiz o bem e recebi um mal como resposta nessa situação da vida?
É precisamente para esse tipo de caso que iremos fazer nossas considerações para ajudarmos uns aos outros a vencer esses momentos difíceis da vida.
Com esse objetivo, usaremos em um primeiro momento os ensinamentos do próprio Deus na Sagrada Escritura e, finalmente, como tema final, a devoção a Nossa Senhora de Fátima.
Nesse sentido, a primeira resposta que podemos dar para o sofrimento é a de que em muitos momentos, ainda que sejamos servos bons e fiéis a Deus, o sofrimento pode bater a nossa porta. São as provações. Na Bíblia, a história de Jó, em seu livro próprio do Antigo Testamento, é caso clássico desse tipo de realidade.
Mesmo sendo um homem justíssimo e fiel a Deus, não merecendo, por justiça, nenhum sofrimento, este o assolou das formas mais aterradoras. Aconselhamos a leitura do livro de Jó para que o leitor apreenda melhor todas as circunstâncias envolvidas.
Aqui, trata-se da situação em que Deus permite o sofrimento a fim de provar seus eleitos. Mas o final é um só: quando se sofre em Deus, toda a sua bênção será restabelecida e de forma ainda maior, como se pode comprovar no mesmo livro de Jó, em que ele, depois da prova, gozou de ainda mais graças de Deus do que anteriormente. Logo, o caminho é um só: não desesperar e confiar em Deus na prova. Jamais sofrer sem Ele e confiar que quando a prova passar, receberemos bênçãos ainda mais abundantes.
A segunda resposta e sentido divino para o sofrimento, finalmente, encontramos nas aparições da Virgem Maria em Fátima.
Antes mesmo das aparições, o anjo de Portugal preparou as três crianças que viram Nossa Senhora, orientando-as que oferecessem todos os sofrimentos que pudessem em três intenções: por amor a Deus, pela conversão dos pecadores e em reparação às ofensas cometidas contra o Coração Imaculado de Maria.
Verifica-se aqui, nesse ponto, o sentido redentor para o sofrimento.
Nenhum sofrimento é em vão e aprendemos isso em Fátima.
O conselho de Nossa Senhora para que ofereçamos sacrifícios pelos pecadores e para reparar as ofensas a Deus está em consonância com a prática sempre perseguida pelo próprio povo de Deus.
Moisés, o rei Davi, Elias, Ester, Daniel, Paulo de Tarso e o próprio Jesus ofereceram penitências a Deus Pai como forma eficaz de o agradar, reparar e atrair bênçãos.
Nessa esteira, a Igreja sempre nos pede que rezemos pelos pecadores, que tanto ofendem ao coração de Deus. Orienta que rezemos para que trilham o caminho de Deus e se convertam, enfim.
É curioso observar essa diretriz da Igreja quando olhamos para um aspecto puramente abstrato: o de que os pecadores ofendem a Deus e precisam se converter. O de que simplesmente devemos rezar por eles. Parece algo tão sem substrato e no plano das ideias mesmo, quando o meditamos apenas sob esse prisma.
No entanto, essa orientação ganha uma dinâmica completamente diversa quando adentramos ao problema de maneira mais profunda e prática. Ou seja, quando passamos a analisar aqueles casos que nos chocam tanto em que a maldade humana parece não ter limites. Nesses casos, nos sentimos impotentes e parece que não há esperança. Mas é exatamente nesse ponto que Deus deve ser inserido com a nossa fé.
Pensemos para isso, por exemplo, em um pecado e mal que assombra até os corações mais duros: a violência e assassinato de uma criança tão inocente e indecesa na mais tenra idade. Vejamos os casos então de crianças que são abusadas e assassinadas ainda bebês por seus próprios pais.
Em um caso desse, assim como, sempre que observamos a maldade devastadora que há no mundo, em que nos sentimos devastados, de fato, rezar para que esses corações perversos se convertam e encontrem a Deus, se torna uma exigência mais que necessária. Rezar, enfim, para que a maldade humana seja superada.
Fátima nos ensina que o mal ofende a Deus de forma brutal. Em sua última aparição, a Virgem Maria pediu que parassem.de tanto ofender ao coração de seu Filho.
Oferecer penitências pela conversão de quem peca é uma das mensagens de Nossa Senhora em Portugal. Seus frutos são eficazes. Essa sempre foi a fé da Igreja, desde o seu nascedouro.
Ademais, quando o sofrimento nos assolar, a condição é: jamais reclamar ou desesperar. Ao contrário, oferecer cada sofrimento nas intenções acima.
E já alertava o anjo de Portugal às crianças, oferecer tanto os sofrimentos que nós deliberadamente oferecemos como penitência, a nossa escolha, mas sobretudo — ou seja, o mais importante — os que Deus nos enviar por permissão Dele.
Esse sofrimento oferecido a Deus possui méritos nos céus e como disse Nossa Senhora em Fátima, muito agradam a Nosso Senhor.
Aquelass crianças pastoras em Portugal, chegavam a colocar cordas ao redor do corpo para que o incômodo pudesse servir como causa de oferecimento a Deus por Seu amor, pela conversão dos pecadores e em reparação às faltas ao Imaculado Coração. O oferecimento das crianças era tanto que a Virgem Maria orientou para que não carregassem essas cordas na hora de dormir.
Façamos então como essas crianças que viam no sofrimento causa para agradar a Deus, certos de que Ele está conosco e nos cumulará de tesouros dos céus e também com consolações ainda nesta vida, como aconteceu a Jó. E como diria São Paulo, que completemos em nossa carne o que falta aos sofrimentos de Cristo.
Olhemos, portanto, para o sofrimento, com um olhar sobrenatural de que se o oferecemos a Deus, a sua bênção será sempre nossa maior recompensa. Nunca mais encaremos o sofrimento com outro olhar que não esse.

